CRISE MORAL NOS DIAS ATUAIS!
Falar
em ética, em moral é extremamente necessário, dada a situação em que vivemos no
nosso país: “mensalão”, “pixuleco”, “acarajé”, e tantos nomes mais, que apenas
confirmam a crise moral vivenciada no nosso cotidiano. Mas, antes de qualquer
coisa, o que seria moral? Em uma definição bem simplista, diria que seria um
padrão de conduta tida como correta pela sociedade, seria fazer o que é certo,
lembrando que a moral difere do Direito. A moral tem especificidades próprias,
ela é subjetiva, e atua fortemente na vida dos indivíduos em geral, ainda que
não se opte a agir segundo a mesma.
Comecei esse texto com uma famosa frase de Rui Barbosa, e esta
frase guiará as minhas breves considerações. Infelizmente, vivemos
em uma sociedade decadente, sociedade esta, que a cada dia que passa, reflete
mais e mais características negativas dos indivíduos que a constituem. A grande
aspiração de vida disponibilizada pela mídia, e quem tem sido incorporado por
muitos indivíduos é a “cultura do ter”, na qual, o indivíduo é louvado, bem
quisto, quando possui riquezas, um bom carro, um bom apartamento, quando ele
pode “ostentar” o que possui, ou seja, a busca pelo “status”, tudo isso
em detrimento do “ser”, no qual, pouco, ou nada importa o que você tem, o
importante mesmo é ressaltar as suas qualidades individuais, qualidades estas
que trazem diversos benefícios no meio em que se vive. O perigo dessa “cultura
do ter” se dá quando não se impõe limites para atingir esses fins, justificam
tal ato com uma distorção de um frase de Maquiavel: “os fins justificam os
meios”, ou seja, para alcançar o que quero, as palavras “não posso fazer isso”,
é completamente descartada, pois o meu bem individual está acima de tudo.
O
famoso jeitinho brasileiro que é a forma utilizada para se alcançar bons
resultados independente dos meios utilizados está enraizada fortemente no nosso
cotidiano. Na qual, o indivíduo está sempre querendo levar vantagem sobre o
outro, custe o que custar, é aquela “boa” e atual forma de se dar sempre bem,
pois para alguns, este é o sentido da vida humana na Terra. Falando sobre isso,
lembro-me de um episódio que aconteceu comigo que reflete um pouco essa
questão: Na minha infância, fui ao mercado comprar algo que a minha mãe me
pediu, juntamente com o meu irmão, e nesse trajeto, bem próximo à minha casa,
olhei para o chão, e vi um objeto diferente envolto numa capa de couro, e no
primeiro momento, achei que era uma carteira, mas quando o peguei, percebi que
tratava-se de um celular. Como uma boa criança, fiquei feliz, pois não tinha
celular, contei tudo para a minha mãe, e deixei o mesmo em suas mãos, fui para
a Igreja, e quando voltei, ela me disse que o dono havia ligado, e que era um
rapaz que trabalhava próximo a minha casa, no dia seguinte fui devolvê-lo, ele
me deu R$ 10,00 como retribuição, mas para mim, o dinheiro pouco importava,
pois entendi que não poderia ficar com algo que não era meu, que eu não havia
comprado. Conversando com a minha vizinha sobre essa situação, ela me disse o
quão “besta” eu fui, que não era para ter feito isso, que era para ter
desligado o celular, e ter trocado o chip, pois seria isso o que ela faria.
Tais palavras em nada mudaram minhas concepções, pois na minha consciência
tinha a certeza de ter feito o que era certo.
Na
minha opinião, a corrupção, a crise da moralidade não começa “em cima”, nos
altos cargos do governo, mas constitui-se na base da sociedade, que começa com
questões desde “furar filas” em colégios, bancos, etc. E continua com o chamado
“pistolão”, no qual um conhecido que lhe oferece vantagens para agilizar
processos judiciais, garantir aquela vaga de emprego em determinado órgão
público, conseguir um estágio, sem precisar passar por uma seleção, ou seja, em
obter vantagens nas mais variadas áreas desejadas. E a partir dessa base, ela
vai aumentando, aumentando até que pareça normal, e seu reflexo aparece nos
altos cargos do governo, nas suas operações, e até mesmo na formulação de leis,
que fogem do ideal de representar a melhoria das relações entre a população em
geral, e passam a ser apenas, um instrumento de manutenção da classe dominante
enraizada de interesses pessoais, que nada visam contribuir para o todo.
A
frase de Rui Barbosa reflete muito bem a nossa situação, e me inspirou muito
nesse breve relato. Infelizmente, as pessoas estão desanimadas quanto à
melhoras na sociedade. Quando vemos casos de pessoas, que ao achar uma quantia
em dinheiro, e a devolve, tal episódio aparece na imprensa como sendo algo de
outro ‘mundo’, o que era para ser algo comum, torna-se algo raro. A injustiça
toma conta do cenário mundial, os mais humildes sofrem, pois para a sua
desgraça, os homens maus estão com o poder, e este poder é utilizado apenas
para o seu próprio benefício, esquecendo com isso, os mais pobres. As pessoas
assistem a televisão, e só veem casos e mais casos de escândalos envolvendo
autoridades públicas, de pessoas que teriam como missão ser íntegras, cometendo
atos ilícitos. Tudo isso só aumenta a descrença das pessoas quanto à construção
de um país melhor. O que fazer então? A desonestidade, a imoralidade irá
prevalecer? Precisamos pensar que nós somos os responsáveis pela melhoria da
sociedade, que não devemos nos abater com a desonestidade, a corrupção, o
triunfo das pessoas que as cometem. Temos que fazer a nossa parte, fazendo o
que é correto, educando as nossas crianças a fazer o que é correto, não apenas
com a fala, mas através de uma vida exemplar, íntegra e respeitosa. Enquanto
houver pessoas com bons ideais, que não se curvem ao que é errado, sempre
haverá a chance de mudarmos o mundo. Não esperemos que a mudança venha dos
outros, mas sim, que entendamos que a mudança deve começar em nós. Thomas Kuhn diz que: as crises são
uma pré-condição necessária para a emergência de novas teorias e novos
referenciais, portanto façamos desta crise moral, não um gigante, ao qual
iremos no curvar, mas sim, um obstáculo necessário para chegar a um outro
estágio de nossa evolução, que iremos transpor, conduzindo a população para o
alcance de uma vida melhor, mais justa e igualitária.